A PSICANÁLISE
pós junguiana de Silvia Montefoschi
Toda área da psicologia ou psicanálise pressupõe uma perspectiva filosófica a respeito da vida e do humano.
Pressupõe uma teoria sobre a qual nos apoiamos para compreender o homem, suas dinâmicas relacionais, consigo e com o outro, seus sentidos, sentimentos e significados. Entendemos que todos esses aspectos estão intrinsecamente relacionados à nossa dinâmica psíquica e é sobre este campo que a Psicanálise se propõe compreender e estudar.
"Com Jung, o conflito posto por Freud entre a dimensão pulsional do homem, visto em sua particularidade, e a sua necessidade de ser social, se resolve na dialética da condição humana."
SILVIA MONTEFOSCHI

Esta é uma abordagem que necessariamente declara um posicionamento antropológico e social.
Compreende que aquilo que se experimenta a nível individual e psicológico, está intimamente ligado às relações e ao meio social no qual tal individuo se insere e se relaciona.
Um mal estar que o individuo experimenta é também produção de seu tempo histórico e sua cultura.
Todas as formas de relação impactam a história pessoal de cada individuo e este por sua vez, é parte da construção social na qual se insere. Portanto, cada individuo, é parte responsável pela transformação do meio social ou por endossar as atuais regras de conduta, moral, entre outras construções sociais.
A análise é campo de reconhecimento, questionamento e transformação destes papeis.
Na maioria dos casos, quando escolhemos fazer análise, não fazemos ideia de qual vertente nosso analista se identifica e pratica. Nem mesmo, sabe-se que, dentro da psicologia, existem diversas teorias e perspectivas a respeito do humano que impactam no trabalho que acontece na relação analítica.
Para quem se interessar, procuro fazer um breve resumo do percurso da psicanálise pós Junguiana.
Ser sucinta aqui com o trabalho elaborado por Silvia Montefoschi e Jung, é deixar de lado muitos aspectos e temas importantes de seus trabalhos. Porém, esta página se propõe a trazer apenas uma ideia de como estes grandes pensadores contribuíram para o conhecimento em psicanálise e a que este saber se propõe.
A psicanálise se inicia com Sigmund Freud, ainda no final do séc. XIX.
Assim como muitos outros pensadores da época, Freud buscava compreender o funcionamento da psique humana e foi, através de seu contato com pacientes diagnosticados com histeria, que criou seus primeiros postulados a respeito da teoria a qual chamou psicanálise. Tais pacientes, apresentavam sintomas físicos que não encontravam uma raiz biológica, levando Freud e outros médicos psiquiatras à pesquisas no campo psíquico para compreender tais fenômenos. A partir disso, cria a psicanálise, que declara a existência de uma "área" inconsciente na psique humana. Significa então, que existem conteúdos a nível psíquico que estão para além dos limites conhecidos pelo "eu", estão fora da consciência, sendo designados portanto, como inconscientes. Freud foi o primeiro a anunciar que o "eu não é senhor em sua própria casa".
A partir de Freud, muitos outros pesquisadores, que também se debruçavam a compreender a psique humana, passaram a desenvolver tal pensamento e criar seus próprios desdobramentos a partir de seus postulados, desenvolvendo e dando continuidade ao campo da Psicanálise.
Este é o caso de muitos outros psiquiatras e psicólogos e psicanalistas como Jung, Firenze, Lacan e, neste caso, Silvia Montefoschi, que dá continuidade e desenvolve o campo de pesquisa iniciado por Carl G. Jung.
C. G. Jung (1875- 1961) nasceu na Suíça, formou-se como médico psiquiatra e ficou mundialmente conhecido por sua vasta pesquisa na área da Psicanálise.
Jung compreende a Psique e sua dinâmica de maneira adversa aquela incialmente proposta por Freud, e segue em sua vida uma longa pesquisa que contribui e enriquece sua teoria psicanalítica.
Para ele, a psique é mais vasta e profunda visto que os conteúdos conscientes e inconscientes extravasam o âmbito pessoal e incluem o coletivo, assim como a história de curso de toda a humanidade.
O Inconsciente não é resultado de traumas e conteúdos que são "removidos" da consciência, mas ao contrário, em Jung, é a consciência uma instancia da psique que "nasce" do inconsciente por um processo de diferenciação.
A premissa de que os conteúdos psíquicos extravasavam o âmbito pessoal e abarcam o conteúdo psíquico da humanidade como um todo, foi um dos motivos iniciais que demarcou a separação entre Freud e Jung. A partir de então, Jung segue sua pesquisa construindo sua própria teoria psicanalítica.
Silvia Montefoschi (1926 – 2011) é italiana, nascida em Roma. Teve sua base de estudos com Ernest Bernhard, onde conheceu a vertente junguiana, à qual aprofundou sob o viés da filosofia dialética, despontando desde o início de sua carreira como pesquisadora no campo da psicanálise pós Junguiana.
Pelo viés de uma filosofia fenomenológica e dialética, Montefoschi compreende a estrutura metodológica do pensamento de Jung trazendo clareza e expondo a lógica por trás de seu vasto percurso. A partir desta perspectiva que modela a própria forma do humano fazer conhecimento, a autora reconhece a raiz do pensamento junguiano.
Segundo Silvia Montefoschi, Jung pode ser lido por diversas "chaves teológicas que veem em Jung o descobridor das raízes religiosas da alma humana; chaves hermenêuticas que atribuem a Jung a descoberta de dinâmicas psicológicas universais quais categorias primárias do pensamento; chaves mais genericamente culturais que explicam seu discurso dentro de um contexto histórico, ou em relação às suas origens, ou pela análise de múltiplos fatores psicobiográficos e sociológicos".
É exatamente a chave dialética, a qual Jung também exerce em seu modo de fazer conhecimento, que permite compreender a realidade humana em sua perspectiva histórica, constatando assim que a característica comum do homem ao longo de sua própria história é a constante transformação de si e das estruturas sociais. Nas palavras de Montefoschi "a característica comportamental assumida como normal é justamente a capacidade de se distanciar dos papeis, dos esquemas comportamentais estabelecidos numa dada situação, e transformá-los, transformando a si próprio e ao social."
É portanto a perspectiva dialética a qual Montefoschi evidencia, que permite enxergar o homem sob um novo viés, onde o indivíduo é parte integrada e essencial ao próprio devir humano, que cria a cultura e a transforma ao longo do tempo, processo qual Jung chamou processo de individuação. Este, tema central de todo pensamento que Jung produziu, só é possível através do diálogo constante entre consciente e inconsciente, que promove a renovação do ser que se faz ao longo da própria história.
É no processo analítico, apenas na relação com o outro, que podemos realizar este diálogo.